Por Téo Cordeiro
Certo dia caiu na rede um documento circulado entre emissoras privadas de Televisão que assim dizia:
“Antes de iniciar o plano de manipulação da população contra o movimento grevista que desejar certifique-se a) sobre o seu alvo, avaliando em que grau esta greve pode prejudicar de fato a extração dos seus lucros. Exemplo: Greve de professores ou profissionais de Saúde Pública prejudica muito pouco ou quase nada a maximização dos seus lucros, por isso recomenda-se negligenciá-la. Diferente da paralisação de Policiais ou do Corpo de Bombeiros que podem deixar vulnerável a promoção dos eventos/ produtos de entretenimento como o Futebol ou o Carnaval; b) pesquise o nível de popularidade deste movimento a fim de planejar a qualidade e intensidade das imagens e discursos que serão usados para reverter uma eventual grande legitimidade por parte da população; c) tente se certificar da retaguarda e/ou convergência aos Governos municipais e estaduais para que seu discurso possa parecer o mais oficial possível. Assegurado estes elementos parta para o passo-a-passo.
1º passo – Faça seus repórteres selecionarem, minuciosamente, relatos de cidadãos, se possível dentro de seus automóveis, falando sobre os “inconvenientes” da greve como engarrafamento ou atraso na prestação de algum serviço. É imprescindível não dar oportunidade para relatos de apoio a paralisação, muito menos sobre os porquês da sua realização que geralmente esta associada a reivindicações para a melhoria dos próprios serviços públicos.
2º passo – Caso queira mencionar sobre as reivindicações dos manifestantes, reduza-as para a questão salarial somente, para parecer que o movimento é, como todos, nada mais que um movimento corporativista. Coloque números bem grandes na tela argumentando o quanto é razoável o que esta sendo oferecido pelo Estado sem fazer comparações com outros Estados da federação. Diante o baixo poder aquisitivo da população que assiste os canais abertos, tente produzir aquele velho jargão junto ao espectador: – Ah, estão reclamando de barriga Cheia!
3º passo – Procure diminuir sempre o numero de envolvidos nas mobilizações. Nos atos públicos reduza em média em 80% a estimativa fornecida pelos órgãos oficiais. Portanto, se, por exemplo, uma assembléia na Cinelândia tiver 10 mil pessoas, divulgue 2 mil. A comprovação é simples: colha imagens (fotos ou vídeos) de um plano alto (Helicóptero ou prédio) no momento anterior ao inicio da assembléia ou no final quando estiver bastante esvaziado.
4º passo – Selecione uma, ou no máximo duas lideranças, pois é a melhor forma de demonstrar que não há coletividade no movimento, construção junto às bases, apenas algumas pessoas que tem o dom de manipular outras.
5º passo – Adote a tradicional estratégia entre as emissoras privadas dos países capitalistas desenvolvidos, qual seja a de criminalizar ao máximo o movimento grevista exibindo imagens de alguma manifestação de revolta ou dano ao patrimônio alheio. Tente captar algo destruído, uma pessoa ensangüentada, alguém chorando e tente atrelar aos manifestantes. Caso o movimento seja pacífico e ordeiro, e não tenha produzido nenhum ato mais enérgico, use a criatividade. Procure um vídeo da fala da liderança e faça uma edição de um trecho que deixe a entender uma suposta contradição que os telespectadores irão desaprovar. Por exemplo, caso a liderança esteja discursando: – Companheiros! Não pararemos a Greve se não forem atendidas as nossas reivindicações- depois de editado exiba só o trecho: – Companheiros! Não pararemos a Greve! – Os julgamentos morais tem tido ótima repercussão entre os Brasileiros pelas intermináveis notícias de Brasília. Centrando o foco no personagem (a liderança), como uma espécie de bode expiatório, o objetivo é negligenciar a coletividade envolvida da mobilização e seu conteúdo político / reivindicatório.
6º passo – Terá dado um grande passo se conseguir trazer um comandante e/ou militares de alto patente para, em exibição ao vivo, darem depoimentos tranqüilizando a população e desaprovando os manifestantes. É certeiro quando é trazido por parte destes comandantes o regime interno da carreira militar que não permite manifestações visto que o papel dos profissionais de Segurança publica ou defesa civil é de proteger a população e estar a serviço da Lei. Como a população desconhece, ou ao menos aparenta desconhecer, a realidade destes profissionais que tem diversos direitos desrespeitados (condições de Trabalho, assistência à Saúde) ao longo da sua carreira profissional, esse discurso da alta patente cai como uma luva. – O importante é cumprir a Lei, não importa as condições para que isso aconteça.
7º passo – Por ultimo, o mais importante passo: nunca oportunize a voz dos manifestantes. Em nenhuma circunstância, muito menos ao vivo. O êxito de todo esse processo depende da supressão do adversário e de seus argumentos. Nossa justiça só deve ter um sujeito, aquele que julga, sem ser mencionados direito de resposta ou ampla defesa do acusado. Com a estratégia de criminalização do movimento principalmente a partir das suas lideranças, a verdade que prevalecerá é a sua, pelo fato do adversário nunca poder pronunciar a sua versão sobre os fatos. Imagine se o adversário, com a ajuda do Governo, puder ser detido numa prisão de segurança máxima como Bangu 1. A própria notícia não precisa ser repercutida. Quem fica preso em Bangu 1? A população tirará suas próprias conclusões e seu objetivo será comprido: menos uma insurgência de classe que possa por em riscos a manutenção da lógica de mercado.
Certificando-se do esvaziamento do movimento grevista, passe a negligenciar qualquer tipo de manifestação e se volte a exibição de programações voltadas ao entretenimento recheada de alegria da população, alheia as agitações sociais. Nada melhor que um carnaval para fazer um povo esquecer o passado recente.”



















