Quem samba fica, quem não samba vai embora

redacao dezembro 21, 2011 0

Por Daniel Israel, revista Vírus Planetário

Na última quinta-feira (15/12), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), sediada no Rio de Janeiro, ficou pequena para a sessão de Carlos Marighella quem samba fica, quem não samba vai embora (Carlos Pronzato, 2011). O documentário, filmado em longa-metragem, é parte das comemorações pelo centenário de nascimento daquele que foi um dos mais importantes revolucionários, na época em que o Brasil tentava resistir à ditadura militar.

Movimentos sociais e partidos políticos ficaram no saguão do 9º andar da ABI, vendendo livros, DVD’s e camisetas. No mesmo espaço, o diretor do filme Carlos Pronzato tinha a sua banca montada, para vender livros e DVD’s de sua autoria. Logo se via que Pronzato é um cineasta que cumpre à regra o mote de Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Argentino, ele vive no Brasil desde a década de 1980, e possui um currículo pouco comum para quem ainda está com 50 anos: no total, já dirigiu 46 obras, entre curtas, médias e longa-metragens. Registra o que acredita e milita em nome de todos nós, latinoamericanos – da exportação do gás boliviano para os EUA à admiração pelas mães argentinas da Praça de Maio, de manifestante contra aumento na passagem de ônibus no Brasil à manutenção do ensino público, gratuito e de qualidade no Chile.

Ao mesmo tempo, o documentarista se dedica a cursos e oficinas de Cinema pelo Brasil, seguindo em frente com seus registros potentes sobre as nossas mais diversas, profundas e persistentes formas de resistência – à exploração e violência oriundas do dito “mundo civilizado”. Abaixo, breve resenha sobre a obra e a trajetória de Carlos Pronzato:

 Há um cineasta francês chamado Luc Moullet, cuja obra nunca foi exibida em circuito comercial no Brasil. Entretanto, em meio ao Carnaval, o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ) nos presenteou com uma retrospectiva de sua carreira. Alcunhado no catálogo distribuído pelo CCBB como um diretor que faz “cinema de contrabando”, os filmes do diretor fazem jus à expressão resumida. Que o diga o documentário Gênese de uma Refeição (Genèse d’un repas, 1978, 117’), quando, nos instantes finais, ele enumera, de forma autocrítica e bem-humorada, os recursos (sociais, financeiros etc.) que o permitiram concluir a obra.

Com isso, o grande mérito de Moullet não é o filme em si, mas o que vemos a partir do resultado – que é a finalização do filme –, por ele desconstruído, de trás para frente. Para nós que somos mais jovens, a ficção Irreversível (IЯЯƎVƎЯSIBLƎ, 2002, 99’), de Gaspar Noé, é certamente uma lembrança mais recorrente. Mas a reflexão não é sobre um nem outro. É sobre Carlos Pronzato, documentarista como Moullet, com a diferença de que é nascido em uma ex-colônia espanhola, a Argentina, e sua filmografia é mais extensa. Além do mais, não precisou sair do próprio país com o fim de investigar o percurso que os ingredientes fazem até chegar à mesa de senegaleses e senegalesas, população subjugada pela França de Moullet no período 1902-1960.

Residente em Salvador, capital da Bahia, Pronzato se dedica a documentários que, por um lado, exploram as ligações recentes de dominação política pelos Estados Unidos na América Latina, e, por outro, investigam a organização de diversos grupos nacionais em torno da exigência por melhorias sociais.

Em se tratando da primeira parte, temos obras como Procurando Allende (Buscando a Allende, 2008, 70’), um dos poucos longas que realizou até hoje. À semelhança da minoria de seus filmes, trata-se de uma obra pautada pelo que ocorreu em um período histórico bastante definido, no caso a morte do ex-presidente do Chile Salvador Allende e o apagamento de seu legado em Valparaíso. Não à toa, Pronzato se divide entre a cidade costeira e a capital, Santiago.  A base de sua investigação está no mistério de onde teria nascido o presidente assassinado pelas Forças Armadas, que, em 11 de setembro de 1973, bombardearam a residência oficial – o Palácio de La Moneda –, passando para o lado do ditador Augusto Pinochet.

Para piorar, a falta de conhecimento e memória política dos habitantes locais, algo tão repetido como um problema também nosso, enquanto brasileiros, tanto não colabora em sua busca, quanto nos faz ter ideia de que as ditaduras conjuntas no continente levaram as nações latinoamericanas para destino e certeza comuns: são veias abertas que jamais se fecharão. Nas palavras do próprio Allende, “a história é nossa e o povo é quem a faz.”. De forma positiva ou negativa.

Na outra ponta, mantendo relação com as obras de resgate histórico, estão documentários que retratam reivindicações, mobilizações populares, em torno de questões cruciais para a manutenção de direitos sociais. Como fazer para garanti-los? No média A rebelião dos penguins – os estudantes chilenos contra o sistema (La rebelión pinguina – los estudiantes chilenos contra el sistema, 2007, 40’), Pronzato nos conta o feito de estudantes secundaristas, tendo mais uma vez o Chile como cenário.

E neste caso, não é uma questão de governo – porque a insurreição popular teve início no governo de Michele Bachelet, do Partido Socialista, já se está quase na metade do mandato de Sebastián Piñera, que saiu do Renovação Nacional por questão estatutária. Agora, o problema é global, globalizante: desde o infeliz governo Reagan, nos EUA, têm havido seguidas transferências, por agentes do Estado, de serviços públicos (como Educação, Saúde, Transportes, Moradia) para a iniciativa privada, no que ainda hoje está em processo e conhecemos como neoliberalismo.

Organizados e bastante envolvidos com a causa, como Pronzato ressalta a todo momento, os estudantes de segundo grau, de uma ponta à outra do Chile, têm tornado possível que esta militância cesse, pelo menos temporariamente, a sanha privatizante de seu governo federal.

Parodiando o título de um documentário brasileiro, nós que aqui estamos, por vós oramos! Não só pelo êxito, mas que repercuta em todo o mundo. Assim, pode ser que o mundo global, sempre visto do lado de lá, do lado dos povos que tradicionalmente usurpam as riquezas da África, América Latina, Ásia e Oceania, passe a ser visto do lado de cá. De quem desejar construir outro(s) modelo(s) de sociedade.

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