Tecnologia para aproximar os cidadãos da política

artur romeu dezembro 8, 2011 0

Por Artur Romeu

A internet permitiu o surgimento de mais espaços de debate e de ação política.  Recursos como as petições online, os grupos de discussão em redes sociais e as listas de e-mails promovem a circulação de idéias e a tomada de decisões efetivas para pessoas que atuam com mobilização social. Um dos exemplo de atuação nesse campo é a organização AVAAZ, com mais de 10 milhões de membros e atuante em 14 línguas, o grupo promove e estimula campanhas de pressão associadas aos direitos humanos em dezenas de países.

Um dos fundadores do Avazz, o australiano Jeremy Heimans, criou em 2008 a Purpose, espécie de incubadora para movimentos sociais. Especializados no uso das novas tecnologias e em estratégias de mobilização, eles contam com experiências positivas como o GET UP! – maior movimento político da Austrália – e o ALL OUT– que atua na defesa dos direitos LGBT em escala global. Um dos mais recentes projetos associados a Purpose é a organização Meu Rio.

Idealizado pela brasileira Alessandra Orofino, o Meu Rio surge com  a proposta de criar uma plataforma para aproximar os cariocas das decisões políticas do Rio de Janeiro. Lançado há cerca de dois meses, a organização conta sete mil membros e promoveu campanhas ligadas às obras do Maracanã e à educação.  Durante um ato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no dia 6 de dezembro, Alessandra conversou com a Vírus Planetário sobre ciberativismo, o momento crítico em que se encontra a cidade e as possibilidades que os cariocas têm de influenciar o debate político.

VP: Qual é a proposta e como surgiu a idéia do Meu Rio?

Alessandra Orofino: A idéia do meu rio surgiu em 2008, quando conversava com amigos sobre o momento de mudança que a cidade começava a experimentar. Esse momento meio eufórico com Olimpíadas e Copa do Mundo ainda não estava tão evidente.  Mas já havia sinais de que a cidade estava mudando de forma muito agressiva e muito rápida. A preocupação era como fazer com que a população tivesse de fato uma voz e pudesse participar dessa mudança, sem que ficasse a margem dos interesses políticos e econômicos. Pensamos então na possibilidade que as novas tecnologias e outras formas de comunicação traziam para aproximar os cariocas mais para perto da política.

Já existiam algumas organizações que usavam formas de mobilização no terreno interessantes e com muito sucesso. Começamos a investigar o que estava acontecendo no mundo dentro dessa área e encontrei o Jeremy Heimans Ele tinha acabado de fundar uma incubadora de movimentos sociais nos EUA com a proposta de abrir as portas para pessoas malucas que tivessem idéias para desenvolver campanhas de mobilização social. Eles gostaram da idéia do MEU RIO e começamos a trabalhar juntos.

VP: Qual é a leitura do Meu Rio sobre o momento que a cidade se encontra?

Alessandra: Em paralelo ao otimismo dos mega eventos, do Pré-Sal e dos maiores investimentos na cidade, existem sérios problemas principalmente com aspectos desse desenvolvimento. Uma falta de debate sobre o modelo de desenvolvimento que a gente busca. O Rio está mudando e negligencia verdadeiros problemas da cidade, como a falta de espaço para a participação pública e a falta de transparência do poder público, além de ignorar as lutas das pessoas que estão sendo excluídas desse processo de desenvolvimento acelerado. Vivemos uma contradição, apesar da euforia, existe uma apatia sobre o processo político.

VP: Qual é o modelo de atuação do Meu Rio?

Alessandra: Por enquanto estamos trabalhando com campanhas que estimulem o debate e ação política sobre determinadas questões. Temos três tipos de campanha. A primeira é uma resposta ao ciclo de notícia. Quando achamos que tem alguma coisa acontecendo no mundo que requer uma resposta imediata, a gente responde porque acha que existe um vácuo de mobilização sobre um determinado debate. Isso acaba sendo um pouco arbitrário. É a nossa equipe que esta monitorando notícias e propõe se mobilizar sobre uma determinada questão. Essa equipe vai se ampliando com voluntários e membros, e assim o radar vai ficando mais amplo. Fizemos isso no caso do derramamento de óleo protagonizado pela Chevron.

O segundo tipo são campanhas de longo prazo, com objetivos estratégicos para a organização. Nossa primeira atuação nesse modelo é sobre a obra do Maracanã. Escolhemos o Maracanã porque o Meu Rio veio para ter um olhar critico sobre esse momento otimista e apontar os problemas que persistem numa cidade que está mudando muito rápido.

O maracanã é um exemplo contido de um processo muito mais amplo de mudança no espaço urbano que não leva em conta a voz de quem de fato tem uma relação com aquele espaço. O Maracanã está sendo modernizado sem a participação do torcedor, sem a participação dos cariocas e sem transparência de fato sobre como os recursos estão sendo aplicados e como o estádio vai ser usado no pós-olimpíadas. Será que vai estar aberto a todo mundo, será que os ingressos vão estar muito caros, quais são as implicações para este espaço que é público, a priori.

Provavelmente vai ser privatizado, e o que isso quer dizer? Se a gente está pagando pela reforma qual é o tipo de retorno que este tipo estádio vai ter para a sociedade ao ser privatizado? São tantas questões envolvendo o Maracanã que estavam sendo negligenciadas. O foco é sempre o “Maracanã moderno”. Estádio do primeiro mundo. Que é o mesmo discurso para a cidade como um todo. Nos esquecemos de abordar milhões de problemas muito reais e importantes. Queremos ser esse contra discurso. O Maracanã foi um bom gancho para se posicionar.

O terceiro tipo de campanha é que o tema seja sugerido pelos membros. Nossa equipe de ativistas procura uma forma de quebrar este tema em pequenos pedaços para abordá-lo de um forma que seja mais fácil de agir sobre ele. No caso da educação, fizemos uma enquete. Perguntamos qual é a próxima campanha que o Meu Rio deve trabalhar e a educação ganhou disparado. A gente pegou esse tema e pensou em como quebrar esse grande desafio, que é a educação pública, e transformar em algo mais tangível para que as pessoas possam influenciar diretamente.

Encontramos uma porta de entrada pela Lei Orçamentária Anual (LOA) que está sendo discutida pelos vereadores. Vimos que o Rio não obedecia a Constituição e investia menos do que os 25% previstos. A votação da LOA ia ser hoje (dia 6 de dezembro). Nossa primeira intervenção vai ser então garantir que o Rio invista pelo menos o previsto em educação. A segunda é a criação de um espaço de construção colaborativa em que as pessoas possam dar idéias para melhorar a educação pública.

VP: Existem muitas críticas ao que pode ser chamado de ciberativismo. Muitos grupos acham que a internet ainda é um espaço excludente e que ficar assinando petições onlines é uma bobagem, que a transformação está nas ruas. Qual é a sua opinião?

Alessandra: Acho que tecnologia é uma ferramenta. Se você quer mudar o mundo tem que ter uma caixa de ferramentas bem completa. Você tem várias formas de atuar e de trazer pessoas para perto e para trabalharem junto. A tecnologia web é uma delas, tecnologias de redes móveis é outra. Assim como existem outras tantas ferramentas de comunicação que podem ajudar nesse esforço. Eu não gosto é do fetiche da tecnologia, que ela seja vista como um fim nela mesmo. Não podemos nos perder nisso. Nem todo mundo tem a internet e isso é um problema. Mas pode-se olhar para isso e pensar que: “já que todo mundo não usa, desistimos e vamos ficar nessa certa imobilidade de pensar que nenhuma forma de mobilização é perfeita e portanto nada deve ser feito”. A resposta é procurar outra tecnologias, é explorar interfaces mais amigáveis e acessíveis.

O que é bom de tecnologia é que dá escala. Tecnologia é legal para quem tem pouca grana e quer ter muito impacto. Então se você quisesse fazer uma mobilização de peso no Brasil sem este tipo de rede, provavelmente isso seria um trabalho muito mais caro, requer uma presença no campo com uma série implicações de logísticas caras e complicadas de se fazer. A tecnologia permite qualquer organização, como o Meu Rio, com três pessoas, sentar no computador e lançar uma chamada pra sociedade que pode atingir milhares de pessoas e democratiza muito a possibilidade de ação.

VP: Petição online funciona?

Alessandra: O erro de organizações nessa área é de parar na internet. Tem que se pensar conceitualmente a petição. O que você faz depois da petição, para quem entregar, qual é o impacto que espera ter e como voltar para as pessoas que assinaram a petição e pedir que elas se envolvam ainda mais com essa causa.

A participação delas não pode se resumir a um clique. Hoje (6 de dezembro), aqui na Cinelândia, a gente está fazendo uma primeira experiência desse tipo de caminho. Chamamos as pessoas para estar aqui, não adianta só assinar a petição, tem que estar com a gente na hora do voto.  Agora o voto é às 16h de uma terça feira, nem todo mundo pode vir. Por isso transmitimos pelo twitter, filmamos e documentamos, para dar escala. Quando você começa a dar as pessoas oportunidades de ação elas vêm. Elas querem vir.

Como se determina a estratégia para o uso desse tipo de petições. Muita coisa não se resolve por abaixo assinado. Nesse caso da educação pode ser uma boa solução. Para pressionar um voto dos vereadores que são suscetíveis à opinião pública – se você reúne 10 mil assinaturas é o que se precisa pra eleger um vereador aqui no Rio. Então isso tem um peso. Um voto é super restrito e delimitado no tempo e no espaço. Agora questões complexas, que envolvem conflitos históricos, que envolvem milhões de grupos diferentes, fica difícil resolver com uma estratégia de petição. Vira uma briga de interesse. O voto é um exemplo de ocasião perfeito de que a petição funciona. Já vi funcionar.

VP: Vocês buscam parcerias com os movimentos sociais?

Alessandra: Claro, é fundamental, não se faz nada sozinho. No caso da educação entramos em contato com os sindicatos e com ONGs. Obviamente não se mobiliza a tempo, algumas dessas organizações são grandes. Mas tivemos um diálogo super aberto com o SINPRO e o SEPE. A gente acabou de chegar, ainda tem muito que aprender com organizações que promovem este tipo de debate há mais tempo.

VP: Quais são os objetivos a longo prazo do movimento?

Nosso esforço agora é o de criação de uma comunidade com muitos membros. O Meu Rio quer ser a longo prazo uma ferramenta, uma plataforma de troca de idéias para que as pessoas possam criar o seu debate e influenciar na tomada de decisões políticas para a cidade.

 

Vídeo produzido por companheiros do OCUPARIO que também estavam lá, mesmo após a retirada da ocupação,  mostrando que ainda estão na praça

 

Leave A Response »

You must be logged in to post a comment.