Luiz Antonio Simas

redacao dezembro 6, 2011 0

O SORVETE QUE EU NÃO TOMEI

Foto de Reginaldo Manente, prêmio Esso de fotografia em 1982

(Escrito em 2010, republico esse texto hoje  na intenção do Dr. Sócrates Brasileiro, um sujeito que acertou na mosca quando disse que ganhar não significa merda nenhuma)

Eu achava, simplesmente, que se a seleção ganhasse a Copa a vida seria boa, Deus seria justo e eu, feliz.

Ganhar o mundial, todo mundo sabe, é menos prova de competência que a confirmação do destino – e o nosso destino, em 1982, era mesmo levar a taça, confirmando a máxima de que a nêga é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro.

Era, além disso , a chance de dizer aos mais velhos, que me matavam de inveja porque tinham visto o escrete papar a Jules Rimet em 1970: eu também vi o Brasil ser campeão do mundo e está provado que a derrota em 1978 não foi minha culpa.

E eu imaginei o gol como nosso destino manifesto e tive um misto de pena e desprezo pelo resto do mundo – a humanidade, sem a camisa canarinho, é um aglomerado de gente esquisita vivendo longe demais da zona do agrião.

E vieram os soviéticos, os escoceses, os neozelandeses e os argentinos… Mole. Não bastasse jogarmos muito mais, Seu Tranca Rua, Seu Peri, Pai Joaquim, Tupã e a Senhora Aparecida torciam pela gente, conforme minha avó me explicara.

E veio a Itália, terra do bisavô Salvatore. Jogo fácil, mera confirmação da supremacia estabelecida nos 4 a 1 de 1970. Os carcamanos, afinal, empataram com o Peru, a Polônia e a República dos Camarões. [Ganharam da Argentina, é vero, mas não eram páreo para o escrete canarinho. Mais quatro? Mera formalidade temperada de arte e redes estufadas. E pode, seu juiz, anular gol feio, que é covardia.]

Eles foram fazendo gols e nós fomos empatando. O primeiro queijo é dos ratos, a primeira esmola é dos pobres e o futebol é que nem o bento que bento é o frade – o seu mestre mandou o Brasil ser campeão, ora bolas. Não obstante, levaremos, todos nós, um bolo.

Acabou.

- Vou encher a cara! Disse meu avô.

Eu também, pensei como neto do velho. Peguei as merrecas da mesada, guardadas com afinco para bancar meu futuro – uma tarde na Rua Alice – e entrei na lanchonete do posto de gasolina pisando forte, feito o destemido pistoleiro num saloon do Velho Oeste. Caixão não tem gaveta; eu vou é torrar o dinheiro todo, já que o mundo não é mais o mundo:

- Eu quero um sundae grande de flocos com calda de chocolate e muita castanha.

A garçonete não falou nada – e estava com a cara inchada, a pobre. Preparou o sundae, colocou no balcão e foi chorar mais um pouco no canto.

Peguei a colher e fui dar primeira mordida. Não consegui. Não, eu não sentia tristeza. Falando sério: eu não sentia, na verdade, coisa nenhuma. Tudo era um desencantamento – e se não faz sentido, eu vou sentir o que?

Fiquei ali bem umas duas horas. O sorvete derreteu todo. Como entrei, saí. Imaginei o estádio escuro, sem ninguém. Um estádio vazio, com os refletores apagados, é desde então a imagem mais triste e abandonada que me ocorre para definir a não-vida. Ausência de tudo, inclusive da morte.

A amiga psicologa da tia-avó disse: – Esse menino está deprimido.

A bola, se falasse, diria: – Esse menino não está.

Será isso a ausência da alma? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Sou mais chegado nas alegrias.

A merda é que vez por outra, como ontem, eu dou de sonhar com o sorvete derretendo.

Luiz Antonio Simas é historiador e professor

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