Como nossos pais? Duas ou três coisas sobre a PM na USP

redacao novembro 23, 2011 0

Elis Regina estava errada: não somos como nossos pais. A geração deles lutou – e muitos inclusive pagaram por isso com a própria vida – para expulsar das universidades o aparato repressivo do Estado. E nós, o que fazemos? Clamamos pela volta da polícia… Estou pasma até agora com a onda de comentários reacionários que vi nas redes sociais nos últimos dias sobre o que acontece neste momento na USP, invadida por aparato policial digno de caçada ao Bin Laden em filme de Hollywood… tudo isso para expulsar de lá 70 estudantes. Ou, como muitos andam dizendo por aí, 70 maconheiros-playboys-filhinhos de papai. Será possível que essas pessoas não parem um instante sequer para refletir sobre as loucuras que andam escrevendo e dizendo? Desse jeito, onde é que vamos parar? Talvez em Bangu I, já que todos parecem clamar por mais polícia, mais repressão, mais presídio, mais grades… o problema é que, como já disse o poeta, “as grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão.” Bela reflexão, bastante adequada para este momento de histeria fascistizada que estamos vivendo.

Mais de 3000 estudantes da USP na assembleia geral no dia 17/11 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU)

Que a Globo e as demais emissoras da mídia coronelista disseminem esse tipo de sentimento por aí, não chega a ser exatamente surpreendente. É lamentável, mas ao mesmo tempo previsível. Os barões da mídia estão todos fascinados com as UPP´s, com a atuação de “policiais heróis”, com a ocupação do Complexo do Alemão, com a truculência da PM paulista no trato com os jovens que ocupavam a reitoria da USP… Natural, uma vez que estes sempre odiaram – e nunca esconderam isso de ninguém – os pobres e os que lutam. Para as corporações de mídia, esses dois grupos sociais têm que ser eliminados, de preferência banidos para outra galáxia. Como muito bem assinala Muniz Sodré, essas empresas detêm o monopólio da fala no Brasil, e só transmitem para o público as versões que lhe interessam – tudo com o selo da falaciosa “imparcialidade jornalística”, claro. Desses veículos de comunicação, já sabemos que podemos esperar o de sempre: criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. O que mais me assusta na verdade é ver as pessoas reproduzindo esses discursos de maneira absolutamente acrítica. Nesses dias, vi muita gente supostamente esclarecida fazendo isso. Ouvi gritos inquisitoriais na web: “prendam os playboys”, “arrebentem os maconheiros”, “matem esses filhinhos de papai”. Foi quase possível ouvir gritos exigindo guilhotina em praça pública para esses elementos de alta periculosidade que ocupavam a reitoria da USP. Seria cômico, se não fosse trágico. Essa é a tragédia de uma sociedade que, sob o signo do medo, reage esbanjando fascistização em diversas de suas mais triviais manifestações cotidianas.

Será que alguém ainda se lembra do Maio de 68 francês?

        Um dos comentários mais difundidos pelos que aplaudiam a ação da PM na USP era o de que os estudantes deveriam se mobilizar por objetivos mais nobres, como a conquista de mais verbas para a educação, a não privatização do ensino, a democracia, a revolução. O engraçado é que nunca vi boa parte dessas pessoas em nenhuma manifestação organizada em prol de qualquer dessas causas agora consideradas meritórias – e me arriscaria mesmo a dizer que muitas delas certamente reclamam do caos gerado no trânsito da cidade quando fazemos passeatas em defesa dessas causas de repente tidas como justas. Quem argumenta desse modo ou se esquece da História do movimento estudantil ou simplesmente a desconhece. Afinal, o bom e velho Maio de 68 francês, a reboque do qual se discutiu o situacionismo, a sociedade do espetáculo, o estruturalismo, o stalinismo, as revoluções, o imperialismo e tantas outras coisas, começou… com um motim por dormitórios mistos nas universidades! Pois é… para quem não sabe, aquele maio que mudaria o mundo começou porque os playboys franceses queriam dormir juntos numa boa na universidade – o que na época era um tabu. Eram jovens da classe média francesa que queriam transar na faculdade sem maiores perturbações – será que essa causa é mesmo tão mais nobre do que a luta pela legalização das drogas? Moral da história: o que desencadeia um movimento é diferente do que um movimento desencadeia. A questão não é simplesmente sintática.

A questão da maconha

Para aqueles que andam dizendo por aí que hoje a USP vive uma greve estudantil pelo direito de fumar maconha livremente na universidade: vocês estão enganados – ou agindo de má fé mesmo. Os estudantes estão em greve hoje na USP porque se sentiram agredidos pela ação truculenta da PM no campus – ação essa que não começou na desocupação da reitoria ou na prisão dos jovens que fumavam maconha. Já vinha acontecendo muito antes disso. Já houve meninas autuadas por atentado ao pudor por se beijarem no campus. A todo momento, pessoas são revistadas nos diversos campi da universidade segundo o mesmo critério que orienta essa prática nas grandes cidades brasileiras: preconceito de cor e classe. Me parece mais do que óbvio que a PM não deve estar dentro da universidade, que é o espaço da crítica e do debate – ou, pelo menos, deveria ser. Se a questão é segurança, por que não realizar concursos para a contratação de novos funcionários para a guarda universitária? Ou mesmo investir na melhoria da iluminação nos diversos campi? Ao invés disso, o REItor Rodas prefere trazer para dentro da USP a polícia, corporação corrupta e truculenta. Na minha opinião, a polícia só deveria entrar naquela universidade se fosse para prender o referido reitor, envolvido em denúncias de corrupção para lá de mal apuradas…

Campanha organizada pelo movimento estudantil da USP: “Fora Rodas! Por uma estatuinte soberana já!”

E eis que, passados alguns meses de presença ostensiva da PM nos diversos campi da USP… o número médio de estupros continua o mesmo! Da mesma forma, persiste o medo que a comunidade universitária já tinha de circular por certos lugares dos campi à noite. Ou seja, apesar da presença da polícia, a insegurança continua. Aliás, eu sempre me pergunto como as pessoas podem se sentir protegidas por uma corporação recheada de milicianos e gente capaz de, entre outras coisas, escoltar o traficante Nem para fora da favela da Rocinha.

Hoje, o que move a greve estudantil na USP é a luta pela democracia, abalada pela presença da PM no campus. Esta é a questão que está em jogo na mobilização agora em curso, e não a maconha. Embora a maconha também seja, evidentemente, uma questão a ser discutida quando acontece um episódio como esse. Há anos vivemos, nas principais capitais brasileiras, uma política de guerra às drogas patrocinada pelo Estado. Nesse front, já morreram milhares de inocentes – não só aqui, mas também em diversas partes do mundo. Apesar do alto custo material e humano dessa política, como se não bastasse ela se revelou um retumbante fracasso nas últimas décadas: o consumo de drogas aumenta a cada ano ao invés de diminuir. Talvez fosse sensato, diante desse quadro, abrir o debate sobre a legalização das drogas na sociedade. Esta medida acabaria de imediato com o tráfico e o dinheiro que hoje é investido pelo Estado no seu combate bélico poderia ser empregado em campanhas de esclarecimento a respeito dos efeitos das drogas e em clínicas de reabilitação para dependentes. De mais a mais, se até o próprio FHC já está defendendo essa bandeira, não pode ser nada de tão subversivo e comunista assim, convenhamos…

Outra pérola que vem sendo amplamente disseminada por aí é a de que quem usa drogas financia a violência do tráfico. É verdade. Porém, dito isoladamente, é apenas uma meia-verdade. Ouso perguntar: e quem consome açúcar, não estaria também financiando o trabalho escravo no norte fluminense? Quem consome roupas da Nike não financia a exploração do trabalho de crianças chinesas? Quem compra pipoca e churros na rua não estimula o trabalho informal? Pois é… no capitalismo, parece que todo mundo financia alguma coisa escrota, né?

Quando o medo vira um instrumento a serviço do autoritarismo

Toda a histeria que se vê por aí, quando as pessoas clamam pela presença da polícia em todos os lugares, é semelhante àquela das campanhas da Viva Rio pela paz. Pena que o basta dessa galera da Zona Sul só saia da garganta quando os tiros nas favelas começam a desvalorizar suas coberturas em São Conrado… aí, é pano preto em tudo quanto é janela, como se isto fosse resolver alguma coisa. Sinceramente, não sei se rio ou se tenho pena dessas pessoas…

Toda essa histeria se deve à disseminação do medo na sociedade, sempre incrementada pelo sensacionalismo dos veículos de comunicação de massa. Não que não vivamos numa sociedade violenta – aliás, muito pelo contrário. O problema é que as manchetes dos jornais muitas vezes nos levam a crer que a situação é muito pior do que ela é na realidade. Afinal, tragédia vende jornal. Disso todo mundo sabe…

charges por Carlos Latuff

Além de exagerar na dose, a mídia ainda vende a idéia de que vivemos numa guerra de todos contra todos, onde o que vale é matar o inimigo – que pode ser, potencialmente, qualquer um – o Nem da Rocinha, o maconheiro da USP, o comunista do seu centro acadêmico, o gay do seu bairro, o seu vizinho. Qualquer um parece ser perigoso a priori – claro que uns mais do que outros, afinal estamos numa sociedade de classes. Esta lógica acaba por fazer desaparecerem os já fragilizados laços de solidariedade que ainda existem entre as pessoas, que são aquilo que em grande medida ainda nos humaniza. Já não enxergamos no outro um ser humano como nós, mas sim um inimigo a ser combatido. Isto é muito perigoso…

Se continuarmos nesse ritmo, é possível que daqui a pouco estejamos desejando também a volta da ditadura, em que talvez nos sintamos “mais seguros”. Afinal, o golpe de 64 foi apoiado por pessoas que tinham medo dos comunistas “comedores de criancinhas” assumirem o poder. Esse medo foi amplamente disseminado pela mídia golpista e por boa parte do empresariado brasileiro. A classe média… mordeu a isca, claro – e com vontade! Compareceu em peso às folclóricas marchas da família com Deus pela liberdade. Se para muitos o castigo vem a cavalo, para estes eu diria que veio de pau-se-arara: sim, este foi o destino de muitos dos filhos dessa mesma classe média, estes sim verdadeiros democratas inconformados com a situação do país naquele momento. Moral da história: tenha medo do seu medo e de onde ele pode nos levar. Mas felizmente não sou desses… e os estudantes em luta na USP e em todos os lugares do mundo têm o meu apoio. Estou – e estarei sempre – em defesa da democracia, dentro da universidade e fora dela. Como meus pais há anos atrás.

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