Um por 1.027 é muito mais do que trocar seis por meia-dúzia

redacao outubro 25, 2011 0

Por Daniel Israel*,  revista Vírus Planetário

Pronuciamento de Abbas na ONU em setembro e celebração dos palestinos em Gaza no dia 18/10

Foi libertado na madrugada da última terça-feira (18/10) o sargento israelense Gilad (lê-se Guilad) Shalit. Entregue pelo movimento islâmico Hamas, que governa a Faixa de Gaza, à junta militar que está no poder do Egito desde a queda do ex-presidente Hosni Mubarak, a soltura de Shalit é fruto da troca por 1.027 árabes-muçulmanos e palestinos, presos em Israel e que serão soltos em duas etapas: 477 na última terça-feira (18), além de 550 nos próximos dois meses, de acordo com a BBC Brasil.

Marcado por revoltas populares em todo o mundo, seja para que a população não pague, literalmente, a conta das dívidas contraídas por banqueiros e governantes, seja porque os povos buscam novos rumos políticos, e nos países de maioria muçulmana os movimentos ocorreram em sequência, o ano de 2011 tem outro significado especial: o avanço, desta vez do lado palestino, para a busca da paz entre Israel e os palestinos.

Gilad Shalit, soldado israelense trocado por 1027 árabes-muçulmanos e palestinos

Pela primeira vez em 64 anos – desde a Partilha da Palestina, aprovada em 1947 pelo secretário-geral da ONU Osvaldo Aranha –, a governança palestina conseguiu formalizar uma proposta condizente com as aspirações de quase dez  milhões de palestinos. Além de 1,5 milhão que vivem em Gaza e dois milhões e meio na Cisjordânia, há ainda por volta de cinco milhões de refugiados, levando em conta os que foram expulsos (em torno de 700 mil pessoas) ou passaram a viver em acampamentos improvisados, que, dadas as condições precárias, foram para outros países de maioria árabe-muçulmana. Por isso, fazem parte da contagem os descendentes que já nasceram em outra pátria, como Egito e Jordânia. Dentro da proposta de dois Estados para os dois povos, todo esse contingente seria absorvido pelo futuro Estado palestino.

No dia 23 de setembro, em sessão da 66ª Assembléia-Geral da ONU, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, submeteu às Nações Unidas a criação de um Estado com soberania para os palestinos. Da parte de Israel, a recusa em reconhecer o direito à liberdade palestina aconteceu de forma simbólica: tão logo Abbas subiu no palanque e começou seu discurso, o ministro de Relações Exteriores de Israel Avigdor Liberman saiu do plenário.

Chegada de alguns dos 1.027 presos

A seguir assim, as relações entre Israel e os palestinos tendem a piorar. Apesar de Israel ter concordado com o Plano de Partilha, o momento atual é de desacreditar o pensamento do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Antes de oferecer a paz, o governo israelense precisa concordar com o estabelecimento de um Estado palestino segundo as fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967. Nada simples para ambos: governo e parte significativa da sociedade israelense veem na devolução dos Shetachim (“Cisjordânia”, em hebraico) a possibilidade de recrudescerem atentados e haver significativo aumento da demografia árabe-muçulmana; os palestinos e seus representantes eleitos lutam em duas frentes, e em aḍ-Ḍaffah l-Ġarbiyyah (“Cisjordânia”, em árabe) o controle político e econômico  é do seu interesse, afinal há dezenas de cidades com importância histórica para os muçulmanos, além de Jerusalém (na tradução para o árabe, “al-Quds“), a qual desejam que seja a capital nacional, para quem lhes é sagrada. Por todo o simbolismo que representa a atitude do Hamas, é preciso ver e entender os dois lados da moeda: a paz através da esperança alimentada pelo Hatikva (o Hino Israelense, que em hebraico significa “A Esperança”) e a infelicidade causada entre os árabes-muçulmanos desde o que consideram “A Catástofe” (“al-Naqba“), acarretada pela fundação de Israel.

Emoção na libertação dos prisioneiros. Foto The Electronic Intifada

Mesmo com a recusa israelense em reconhecer o Estado palestino, a soltura de Gilad Shalit e a libertação de mais de mil árabes-muçulmanos que estavam presos em Israel podem significar o fim da presença israelense na Cisjordânia. Pontos nevrálgicos do conflito, a ocupação desse território e a ideia de que Jerusalém é “indivisível” acirram as disputas entre os dois povos, até mesmo em torno do que há de positivo nas tomadas de posição dos dois lados. Atualmente, no entanto, é explícito que a atitude do Hamas significa um passo fundamental na direção do que se diz até hoje sobre o conflito: “Israelenses e palestinos podem não se tornar grandes amigos, mas precisarão aprender a conviver em paz”. Que 2012 – ou 1432, pelo calendário islâmico, ou 5772, pelo judaico – seja ainda melhor em se tratando do esperado re-encontro entre israelenses e árabes-palestinos, judeus e muçulmanos.

Finalizo com a lembrança de que um dos fatores que tanto pode ajudar como prejudicar o convívio entre os dois povos, é o posicionamento da mídia. Em artigo publicado no Brasil pela revista Piauí, o jornalista israelense Yonathan Mendel conta diferentes casos que remetem ao mesmo problema: quando trata de assuntos como o conflito, certos veículos israelenses adotam uma posição defensiva em relação à população judaica, ao mesmo tempo que discrimina os árabes-muçulmanos/palestinos, inclusive quem possui cidadania israelense. Por isso, nunca é tarde lembrarmos a máxima defendida pela Vírus Planetário: “Jornalismo pela diferença, contra a desigualdade”.

*Em memória de Cosme Armando de Mello Aguiar (Neemiah Itzaac), que acreditava que judeus e muçulmanos poderiam, sim, viver juntos na terra santa para ambos.

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