**Entrevista publicada na bula cultural da edição nº11 (agosto/setembro 2011) da revista Vírus Planetário
A banda El Efecto é mais um daqueles raros casos de genialidade na música, tanto no conteúdo como na forma, que não raro são excluídos pelas rádios e pelo mercado fonográfico por seu contundente viés de contestação social.
O grupo, formado em 2002, tem dois álbuns gravados – “Como Qualquer Outra Coisa” (2004) e “Cidade das Almas Adormecidas” (2008) (todas suas músicas estão disponíveis para download gratuito em seu site – www.elefecto.com.br ) e parte para gravação de seu terceiro trabalho.
Apesar de passarem longe da mídia de grande porte, El Efecto vem construindo um público fiel no cenário alternativo por meio da divulgação na internet e em shows realizados em locais importantes como Circo Voador (RJ), Hangar 110 (SP), Fórum Social Mundial (Porto Alegre). Além de ter vencido os festivais Tápias, de 2005, e Rock & Diversão, de 2009.
A banda, que conta com Bruno Danton (voz, guitarra, cavaquinho e trompete), Tomás Rosati (voz e bateria), Eduardo Baker (baixo) e Pablo Barroso (voz e guitarra), está a cada dia mais presente no imaginário de seu público com toda sua beleza lírica e musical. As belas melodias e arranjos (com uma infinidade de instrumentos) contribuem para aprofundar a dramaticidade presente em frases simples e diretas como “Teu tênis novo me chuta a barriga/Qual violência será mais nociva? Te roubam a carteira e de mim roubam a vida?”
Entrevista por Caio Amorim e Mariana Gomes.
Como começou a carreira de vocês?
Bruno: Começamos em 2002. A gente tocava em outras bandas antes, aí formamos o El Efecto para dar espaço para outras coisas que não tinham a ver com essas outras bandas, em termos de ideia, formato.
Você vivem de música?
Bruno: Sim, mas não da banda, sou professor. O nosso baixista trabalha com direitos humanos. A banda não dá retorno financeiro, só para sustentar ela mesma. Mesmo assim a gente ainda precisa bancar algumas coisas com nosso próprio dinheiro.
Tomás: Eu trabalho como professor de bateria e de espanhol. Temos conseguido fazer a banda custear os seus deslocamentos e outras coisas. Essa é a nossa meta. As nossas outras atividades permitem que a gente também conduza a banda da maneira como a gente acredita.
Vocês já buscaram alguma gravadora?
Bruno: Não. Já pensamos nessa questão. Agora a gente está gravando um novo disco. Esse vai ser um momento em que tudo isso vai ficar pesado, porque gravação é desgastante. Às vezes até prejudica um pouco, porque se a gente fosse viver só disso podia se dedicar à gravação com tranqüilidade. Também não sabemos quais as implicações de fechar com uma gravadora, porque a gente disponibiliza tudo na internet. Se não pudermos mais fazer isso, acho que seria bastante difícil aceitarmos. É uma postura nossa, mas ao mesmo tempo nunca nos confrontamos com uma situação concreta que fizesse a gente avaliar os prós e contras disso.
Vocês acham que a música de vocês consegue atingir o público em geral ou ela é mais intelectualizada?
Bruno: Queremos sempre construir junto com as classes mais populares. Mas nesse campo artístico vivemos uma contradição inevitável.
Tomás: A questão de classe para a gente é fundamental. Sempre nos perguntamos até que ponto conseguimos chegar às pessoas. Tentamos usar e abusar da música no seu sentido mais popular, por exemplo, o funk. Sobre a letra, acho que é a forma que afasta mais as pessoas da mensagem. Tem uma questão da letra, que é um pouco angustiante, mas que ao mesmo tempo não dá para fugir, que é a nossa condição de classe. Porque nós falamos de um lugar e, inevitavelmente, as pessoas que se identificam com isso são pessoas que tem angústias mais ou menos parecidas com as nossas. Mais do que isso, a inquietação política que a gente coloca está relacionada a uma cobrança sobre a nossa maneira de agir nesse espectro social.
Como é a receptividade do público nos espaços mais populares?
Bruno: Já tocamos em duas ocupações urbanas. A Flor do Asfalto, que é uma ocupação de punks, e a Machado de Assis, ocupação sem-teto. O evento gira mais em torno do movimento do que do nosso show. Nas lonas culturais a galera que vai já é do rock’nroll, vai para escutar a banda. Eu toparia numa boa, mas nunca tocamos numa favela. Não deve ser tão diferente de um evento de rua, como o Santa Teresa de Portas Abertas. Você está ali fazendo um barulho para pessoas que não curtem o rock. Acho que a favela ou um evento de pessoas que não tem hábito nem o interesse de escutar rock, é igual.
E o novo CD?
Bruno: Conversamos sobre as diferenças entre os discos e ideias que a gente gostaria de resgatar, mas caminha mais ou menos na mesma direção. As ideias, as músicas, é uma maneira de compor tentando aglutinar coisas diferentes. Nesse terceiro CD a gente fez uma avaliação de aspectos que mudaram do primeiro para o segundo para saber o que vale a pena tentar. Unir uma vertente mais irônica e irreverente que no primeiro estava presente.
Vocês acreditam que é possível a banda chegar num patamar de sobreviver só da renda dos shows, mas ainda assim num cenário independente?
Bruno: Eu acho que não, ia ser foda, muito bom, mas acho que não é possível.
Tomás: Seria uma coisa incrível pra gente. Há casos como o do Teatro Mágico, que foram direto pelo circuito alternativo até chegar no patamar de hoje. Consideramos que tem muita gente que gosta do El Efecto, mas, ao mesmo tempo, a gente nunca teve esse boom de sucesso, não temos nenhum videoclipe tão bem produzido. Mas dá pra ser otimista porque a gente está sempre crescendo, né? (risos)
Bruno: Não tivemos grana e nem ninguém pra bancar. Temos dois videoclipes que eu gosto muito, que foram parceiros fizeram. A gente não ganhava em nenhum show, agora a gente recebe pelo menos um trocado pra pagar o transporte.
Há muito preconceito musical, especialmente contra os ritmos populares, e vocês têm um funk gravado, que é uma música das mais famosas. Como vocês enxergam essa questão? Vocês tocam o funk em shows, por exemplo?
Tomás: De vez em quando, a gente toca sim. Sempre tivemos ela como arma secreta.
Bruno: Às vezes pra implicar mesmo com o preconceito.
Tomás: Teve um episódio muito interessante quando a gente foi tocar em Mesquita num evento chamado “Passarela do Rock”. E era aquela galera 100% roqueira, e aí a gente pensou: “Vamos começar com o funk pra ver o que vai acontecer”. Mas a repercussão foi tão escabrosa, eles ficaram com raiva, xingaram a gente, chegaram a desligar o som. Foi uma reação muito espontânea, em que a pessoa acaba se colocando também. Porque, às vezes, tem o público que não se digna nem a vaiar, nem a bater palma.
Bruno: Os roqueiros desses locais é que são os oprimidos. E no bar do lado tinha o funk que atrapalhava o rock deles. E aí fica uma rixa babaca de gênero musical. E eu ainda tava com o cavaquinho, porque emendamos uma na outra. Mas foi maneiro porque, apesar de algumas pessoas terem ido embora, a maioria se prestou a ouvir o resto. No final decidimos dar o disco de graça pra quem ficou. Teve um cara de lá que até hoje pinta nos shows.
Confira algumas músicas do El Efecto:
Três pratos de trigo para trinta tigres tristes





















