Entrevista Inclusiva: Jean Wyllys

rdteixeira junho 28, 2011 0

*** Entrevista publicada em maio de 2010, na 7ª edição impressa da revista. Jean era ainda pré-candidato a deputado federal pelo PSOL-RJ, cargo que ocupa hoje e vem sofrendo ameaças devido a projetos que defende. Foi o primeiro BBB a assumir sua homossexualidade e nosso primeiro entrevistado assumidamente gay. Jean exibe em sua fala o orgulho de sua sexualidade, de ser nordestino, feminista e de esquerda.

Por Caio Amorim, Mariana Gomes e Vinícius Almeida. Fotos de Mariana Gomes.

Ao ganhar a quinta edição do Big Brother Brasil em 2005, Jean Wyllys conquistou estabilidade financeira, parou de trabalhar e vive de renda, certo? Errado. Nosso entrevistado contraria o senso comum. Após o reality show, não descansou e de lá pra cá tem se atarefado cada vez mais: é professor universitário de comunicação; roteirista freelancer; colunista no Correio da Bahia; e mantém um perfil no twitter com mais de 20 mil seguidores. Essas atividades também dividem espaço em sua agenda com a militância pelos direitos humanos para todas e todos. Primeiro participante do BBB a assumir sua homossexualidade, Jean é também nosso primeiro entrevistado assumidamente gay e exibe em sua fala o orgulho de sua sexualidade, de ser nordestino, feminista e de esquerda.

 Como foi sua infância?
A minha infância não é muito diferente da infância, da média do povo brasileiro. Eu vivi até os 12 anos abaixo da linha de pobreza, minha família sobrevivia com bem menos que um salário mínimo por mês. Isso porque meu pai tinha problemas com alcoolismo, não parava em emprego, vivia de biscate. E a minha mãe, por conta disso, teve que trabalhar. Ela era dona de casa, tinha que dar conta dos oito filhos e garantir que nós não morreríamos de fome. Aos dez anos, eu e meu irmão mais novo começamos a trabalhar.  O dinheiro que tirávamos, dávamos para a minha mãe comprar comida. Ao mesmo tempo, eu e meu irmão, ingressamos na catequese da igreja católica. Era uma paróquia coordenada por padres alemães simpatizantes da teologia da libertação e eles nos deram uma boa formação política. Fui para o colégio interno da Fundação José Carvalho aos catorze anos, uma instituição de excelência para alunos de escola pública. Era um modelo de educação suíço, com ensino individualizado, a gente construía nosso próprio saber. Se eu não achasse esse espaço que reorientou minha vida, talvez eu não tivesse escapado da pobreza e desse destino que a maioria da população brasileira acaba sucumbindo por falta de oportunidade, de políticas públicas decentes, de educação.

Você acha que essas dificuldades, além do contato com a teologia da libertação foram fundamentais para o seu engajamento?
Totalmente. Mas além dessa ligação com cristianismo, eu tive uma filiação direta, de militância, entrei no movimento pastoral e foi isso que me deu não só uma aproximação com os ideais socialistas, nessa tradição de esquerda, mas com os valores humanistas, principalmente.

Você tem problemas em falar sobre o Big Brother? A que você atribui sua vitória no BBB 5?
Eu não me recuso a falar do Big Brother, só não quero falar bobagens sobre o Big Brother. Para mim não vai mudar a vida das pessoas, eu dizer se eu sou amigo da Grazi ou da Pink.  Enquanto as questões girarem em torno disso, eu vou me recusar. Se me fizerem uma pergunta que eu ache pertinente, que saia da fofoca e das torcidas, eu vou certamente responder. Muita gente se pergunta “por que o Jean foi parar lá?”. Eu fiz mestrado na linha dos estudos culturais e sempre tive interesse na cultura de massa, porque eu sou uma pessoa que veio das massas. E acho que a cultura de massa é menosprezada e utilizada pelas elites de direita para manipular. Por conta dessas questões, desde que o BBB estreou, eu assistia. E quando aparecia ali alguma questão de interesse público, e que de alguma forma refletia os valores morais, os preconceitos das audiências, eu escrevia artigos. E assim, eu tive interesse de estudar reality shows. Mas se eu ligasse para Rede Globo e pedisse para fazer uma etnografia com o reality show, eles me negariam, óbvio. E aí, eu decidi me inscrever. Mandei uma fita careta, normal, falando que eu era um jornalista, professor universitário, escritor. E para minha surpresa, fui selecionado. Minha intenção não era vencer o programa, de forma alguma. Quando me inscrevi, meu medo era ir parar naquela seção do Video Show onde eles colocam os vídeos dos candidatos toscos (risos). Mas felizmente não aconteceu isso. Fui selecionado, decidi entrar e aí você sabe no que deu.

Como você lidou com a sua identidade sexual na casa?
Eu fui o primeiro a assumir minha sexualidade, com todas as letras e sem medo de ser feliz. E talvez toda a repercussão que veio depois se deu por isso. Quando o Pedro Bial perguntou por que eu havia sido indicado pelos votos de todos os participantes já no primeiro paredão, eu disse que era por causa da minha diferença, da minha orientação sexual.  Quando eu disse isso, o país inteiro parou de respirar por cinco segundos. Mas o que me deu a vitória não foi isso. Hoje eu vejo que venci por trazer uma história de vida e um comportamento que geraram outras identificações. Por exemplo, por eu ter sido um menino pobre, que venceu a pobreza pela educação, pelo trabalho honesto. Dentro do BBB, eu falava do Caio Fernando Abreu, falava coisas que eram parte do meu repertório, das conversas do meio que eu freqüento.  Isso seduziu as pessoas. Os intelectuais, que muitas vezes tinham vergonha de admitir que assistiam o BBB, notaram que o programa começava a ter uma utilidade pública. A minha simpatia pelas religiões afro-brasileiras também colocou o povo de santo ao meu lado. Só quem se identificou com a questão da minha homossexualidade foram os gays engajados e militantes. Os gays urbanos, das grandes cidades, imbuídos daquela cultura gay do fashion, das boates, não tiveram qualquer identificação comigo. Infelizmente, uma coisa que ainda atravessa a cultura gay e que acaba impedindo a conquista de direitos, é a dificuldade de lidar com a homofobia internalizada, com a maneira mais insidiosa pela qual o poder nos domina. A chamada hegemonia, que faz com que as pessoas adotem os valores opressores dominantes. Então os gays acabam falando e agindo por valores heterossexuais sem perceber.

Você entrou e saiu com a mesma visão sobre o programa?
Claro que não, consegui analisar melhor o BBB depois de passar por lá. São pelo menos três realidades constituídas ali, três discursos que se atravessam na construção da imagem pública dos participantes. Lá dentro, as pessoas aplicam uma determinada imagem delas mesmas. Existe uma edição, conduzida pela produção do programa, que constrói outra realidade. E existem os fan sites, os blogs, além dos outros programas, que constroem uma terceira narrativa.   No meu doutorado, trabalho justamente as formas de recepção desses três discursos pelo público. Dentro do programa, agi como um verdadeiro intelectual engajado. A verdade é que eu fiz muito mais por certos setores da sociedade que alguns intelectuais que mantiveram a sua produção restrita à circulação entre seus pares. Enquanto o conhecimento ficar restrito às elites intelectuais, ele permanece sendo um discurso de poder, que tem uma função hierarquizante dentro da sociedade. Eu peguei os temas da intelectualidade, das rodas intelectuais, e levei para o programa de televisão, de massa.

Você acha que as pessoas entenderam que você é um cara de esquerda?
É impossível não entender. O lado da vida que eu me coloco é o da esquerda. O fato de eu ser do candomblé, de eu me posicionar em defesa das minorias étnicas, sexuais, tudo isso me coloca a esquerda. Acho que isso tudo transparece, a minha defesa de valores não hegemônicos, e nem poderia deixar de ser. Existe essa percepção sobre mim até hoje.

Você disse que não se encaixava no perfil de homossexual que a globo queria. Você acha que o Dicesar e o Sergio se encaixaram nesse perfil?
Falar de pessoas é, de alguma forma, interagir com as torcidas e todo esse clima que eu acho desnecessário. Eles são dois indivíduos, tem suas questões, mas de forma geral, pra grande maioria, eles são aqueles velhos esteriótipos reproduzidos nos meios de massa. Eu acho que esse lugar que a Globo imaginou pra mim, eles não cabem também. Não que alguém tenha chegado a me propor isso, mas a conjuntura me colocava nesse lugar de um gay que não tinha sexualidade. O gay ideal, adestrado, normatizado. Nada melhor pra que as pessoas posem de politicamente corretas do que ter um gay desse tipo pra adorar.

Por que você acha que o público se identificou tanto com Marcelo Dourado?
Acho que a simpatia pelo Dourado é um movimento inconsciente. Se você perguntar pras pessoas por que elas gostam do Dourado, elas vão dar uma série de razões conscientes. Mas eu acho que há uma dificuldade em discutir a construção cultural da homofobia com uma massa que não tem acúmulo sobre essa e várias outras questões. O movimento gay dos anos 80 se refez e ganhou visibilidade, principalmente pela Parada Gay.  Nas novelas, cria-se uma sensação generalizada de que o mundo está virando gay, mas quando estávamos condenados ao isolamento, não se tinha essa sensação. A ideia que a maioria hetero tem é de que a TV faz proselitismo homossexual. Há uma sensação geral em relação a qual essas pessoas não podem se posicionar abertamente contra, porque vivemos um tempo de valorização do politicamente correto. E, de repente, começa um programa que reflete essa visibilidade, com três homossexuais assumidos e vários simpatizantes. Aí, entra na casa tardiamente um cara que coloca os seguintes termos: me incomoda, não quero ouvir falar sobre isso, não gosto. Imediatamente, há uma resposta inconsciente a esse movimento. As pessoas acharam ali um porta-voz de coisas que elas gostariam de dizer, mas lutam contra elas mesmas para não dizer. Começou-se, então, um movimento perverso, maldoso, de inverter a situação, criou-se a ideia de preconceito, heterofobia. “Porque o Dourado tem todo o direito de não gostar, porque é fruto do meio dele”, é a heterossexualidade achando o canal de expressão da sua superioridade. E aí recorre-se a todo tipo de falácia, como a tal da heterofobia. Aliado a isso, tem o fato de o Dicesar ter tido problemas de caráter no jogo, e isso fez com que as pessoas generalizassem características individuais pro coletivo ao qual ele faz parte. E as pessoas me escreviam dizendo “como você pode dizer que Dourado é homofóbico? Só porque ele não gosta de gays?”. Ou seja, as pessoas sequer sabem o que é homofobia. Não sou contra o Marcelo Dourado, sou contra o que ele representa, o que ele despertou. Agnaldo Silva falou uma coisa bem interessante: as pessoas não foram selecionadas por acaso para o BBB 10, talvez a emissora tivesse uma intenção em colocar essas pessoas, e uma dessas intenções foi justamente que a audiência voltasse à sua velha homofobia. Querem nos confinar num lugar subalterno. Sergio se colocou nesse lugar. Pra ter aprovação, pra ser visto como belo, ele aderiu ao esteriótipo da maioria, sabemos que muitos gays fazem isso. Há gays que uivam com os lobos.

Essas posições defendidas por você no programa também tem a ver com sua militância partidária?
Na verdade eu nunca quis me filiar a um partido. Meus irmãos são filiados ao PT até hoje. Isso está ligado à nossa história de vida. Nas cidades pequenas, o PT cumpre essa função típica da esquerda, de lutar pela justiça social, pelos direitos humanos. Principalmente no Nordeste, nos chamados grotões do Brasil. Mas nos grandes centros urbanos, o PT está com sua imagem comprometida graças a certas alianças e algumas políticas públicas equivocadas que ele vem defendendo. Não que eu ache o PT um partido horrível, mas dentro do conjunto de partidos disponíveis, o PSOL é o que está mais de acordo com o que eu acredito. Na verdade, eu sempre fui engajado. Sempre defendi, enquanto jornalista e enquanto pessoa, aquilo que eu acredito. Em uma ocasião, conheci o senador Aloysio Mercadante, que me disse algo no sentido de que a política de um cidadão é valida, mas a política organizada é mais eficaz. Por isso, seria proveitoso você se eu me articulasse a um grupo, que me desse suporte, as minhas idéias teriam muito mais amplitude, mais efetividade. Eu refleti sobre isso e vi que fazia sentido. Primeiramente, pensei em procurar um coletivo com o qual me articular. Mas depois pensei que todas as causas que me interessam estariam conjugadas num partido. Um pouco depois de filiado ao PSOL, vi uma nota do Ancelmo Góis dizendo que a minha candidatura a deputado estava confirmada. Anunciaram como sendo verdade sem me consultar. Logo depois, as pessoas da Associação de Gays e Lésbicas de Curitiba disseram que minha candidatura é suprapartidária, que todos estavam interessados nas lutas que eu poderia trazer, e que iam me apoiar. Então decidi não fugir da briga.

Um dos organizadores da Parada Gay de São Paulo nos disse que hoje há muito a questão da festa, e falta politização no evento.
As paradas gays são grandes celebrações do orgulho de ser gay, então nada melhor que uma festa pra isso. Existe uma política da estética, da existência, então aparecer nosso arco-íris nas ruas mostra que somos de fato coloridos, isso é político também. Estávamos condenados até pouco tempo a invisibilidade, existíamos em guetos. Há, até hoje, um medo de mostrar sua sexualidade, e na Parada saímos às ruas pra mostrar nossa cara. E é claro que há pessoas que cometem excessos, e isso será usado contra nós. As mesmas pessoas que acham um absurdo sairmos fantasiados e nos mostrarmos mais na parada gay, acham normal enfiarem a câmera nos lugares mais íntimos da mulher, e não tiram as crianças da sala no carnaval quando estão desfilando várias pessoas sem roupa. Temos que estar atentos a esse discurso, para que não abracemos ele como sendo nosso, porque é não é, é de quem não quer que a Parada aconteça.  Há uma homofobia anônima, difusa, que quer enquadrar os indivíduos em certos papéis de gêneros, normas que transformam alguns em anormais. Transformar a mulher em subalterna, por exemplo. Não é a toa que o movimento gay vem do movimento feminista, e acho que ele deveria voltar a essas raízes, porque as grandes questões são da subalternidade do feminino, os gays mais discriminados são os afeminados.

Você assistiu o filme “Milk”? Qual sua opinião sobre ele?
Fiquei profundamente emocionado com ele. Já conhecia a história, mas ver o filme, o Sean Penn naquela atuação memorável, tão parecido com o Milk, foi impossível não me identificar com ele, não me ver como continuação da semente que ele plantou. Alguém pixou no muro durante a ditadura: “para cada rosa estrangulada, surgem milhões de sementes”. Eu e outros tantos somos essas sementes. Me identifiquei profundamente com o filme, que bom que existe gente nobre como ele, lutando pelos direitos civis homossexuais, pelos direitos humanos.

 

Como você combina família, igreja e seu engajamento?
Temos que lembrar que não existe um modelo de família. Há até um esforço de certos setores de definirem um modelo, mas a família é uma experiência cultural. Ela como núcleo primeiro de socialização vai continuar existindo, mas existem vários tipos de famílias. Acho que brigar pelo direito dos homossexuais de constituírem família é fundamental, pra que se amplie a experiência dos tipos de família. Minha defesa dos direitos dos gays não atinge minha relação com valores familiares por esses motivos. A igreja católica me deu valores humanistas, que vieram através do cristianismo, mas não são propriedade do cristianismo. Não sou mais membro da igreja católica, inclusive me oponho a proibição do uso de camisinha num momento em que o destino da África Negra está comprometido pelo HIV. Sobre o aborto, a mulher deve ter liberdade sobre seu corpo, isso deve ser debatido, com regras, condições. É como Caetano diz: “as pessoas que defendem o espírito no feto, devem lembrar que existe espírito também nos marginais”.

 

 

 

Jean discursando recentemente, já como deputado federal

Você acha que é possível um discurso contra-hegemônico nessa mídia que vemos hoje?

Acho que com as mídias alternativas, que vêm crescendo, os contra-discursos vão forçar as mídias tradicionais a se abrirem para pautas que até então ela não se abria. Claro que vai ter sempre uma tentativa de controle dos meios, mas vai haver um dia em que as massas terão o controle criativo disso. E acho que estamos nos aproximando desse caminho com a internet. Ela é uma batalha entre o velho capital e setores que querem fazer dela um espaço mais democrático. Mas é fundamental democratizarmos a comunicação, senão não haverá justiça social nunca.

E qual sua opinião sobre a cultura de massas?
Ela tem estrutura uma hierarquia de bom gosto e mau gosto. E não pode ser assim, porque o gosto é definido por homens. Nós criamos essas categorias, e isso precisa ser discutido. Tanto a cultura de massa, como a chamada cultura de elite e o esforço das elites em renovar constantemente os signos de distinção cultural para justificar seus privilégios devem ser debatidos. Porque não é por acaso que essas elites definem o que consomem como sendo de bom gosto e a cultura de massa como de mau gosto, há um propósito nisso, é dizer que eles são pessoas melhores, e por isso seus privilégios são justificados. A cultura de massa só poderá ser modificada e democratizada, se entrarmos no debate.

Até hoje você é parado na rua?
Muito! Eu sempre soube que a vida reservava pra mim um lugar especial. Desde menino, descendo a rua pra ir pra escola com fome, eu pensava que algum momento aquilo ia mudar. Não posso nem falar porque eu me emociono… Isso me fez conduzir pra um lugar e escapar desse destino. Foi bom poder ter andado pelo Brasil inteiro, ter visto as coisas que eu vi, meninos que eram discriminados em casa, e me disseram que a família mudou a atitude com eles depois de me ver no BBB. E eu vi muito isso. Às vezes as pessoas não sabem o quanto isso é importante. De alguma maneira é o que Lula faz, e por isso tenho simpatia por ele apesar de tudo. Mas eu acho que ele usou sua experiência de vida para conduzir o país de uma maneira que fizesse mais justiça social. Me identifico muito com Lula, a mãe dele é muito parecida com a minha, uma guerreira, dedicou o melhor dela pra conduzir a gente. Nunca tive vergonha de contar minha vida, sem perder a leveza, mas é uma experiência dolorosa você dormir e acordar sem perspectiva de comer, é humilhante pedir. Queria acreditar num país que as pessoas não tivessem que pedir, principalmente porque a vida na cidade grande faz as pessoas ficarem cada dia mais cruéis sem perceberem.

 

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